Batuques do Sul, a origem do projeto Pequena África

Memorial do Rio Grande do Sul, encontro em 15 de julho de 2023. Foto: acervo Maria Helena Santana

Durante a pandemia (2020/21), a Assobecaty fez um mapeamento de lideranças religiosas e cidades que participam da Festa da Oxum na Praia da Alegria, em Guaíba/RS. Há aproximadamente vinte anos a associação empreende a luta pelo reconhecimento do local  como um território ancestral. Esta demarcação é reconhecida pelo assentamento de Oxum desde meados da década de 1960 e, provavelmente seja o mais antigo do RS. Desse modo, num espectro de reconhecimento, em divisão de forças com o Museu Antropológico do Rio Grande do Sul (Mars), instituição da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac), o projeto Batuques do Sul, com a liderança de Mãe Carmen de Oxalá, foi uma ação embrionária nessa intenção. A movimentação originou uma ampliação desses espectros de reconhecimento através do projeto Pequena África.    

Leia o depoimento de Maria Helena Santana, antropóloga do Museu Antropológico do Rio Grande do Sul, vinculado à Secretaria de Estado da Cultura, uma das parceiras no Batuques do Sul. 

Este projeto se destaca por sua natureza colaborativa, estabelecendo uma parceria não apenas entre o museu e o Pontão, mas também envolvendo diversas lideranças religiosas, como  Iyás, Babalorixás, Mães e Pais de santo das quatro Nações do Batuque – Cabinda, Oyó, Jeje e Ijexá – que participaram ativamente, unindo esforços em oficinas realizadas para refletir sobre os processos de transmissão dos Ilês, das Casas de linha contínua. Essa transmissão acontece pela passagem das casas de religião, os terreiros, de uma geração a outra, garantindo a continuidade dos axés e da Ancestralidade. 

E ela  se configura como uma prática que aborda a herança e a memória de uma trajetória social negra, que se adapta e se reinventa no  sul do Brasil, onde o Batuque  como experiência sociorreligiosa,  representa uma forma de reinvenção e readaptação de modos de vida e visões de mundo, com raízes afro-referenciadas. Trata-se de uma forma de herança sociocultural, um modo cultural de existência. 

A colaboração com essas lideranças, as Mães e Pais de Santo, permitiu a reflexão sobre os desafios e dilemas da preservação de experiências e modos de constituição social. Além da experiência religiosa, o projeto aborda a organização do mundo, a existência e a importância da transmissão da ancestralidade para a memória social e o patrimônio cultural das casas de Batuque. Essa linha contínua de ancestralidade enraíza a experiência de estar no mundo, sendo um aspecto fundamental para seus praticantes”.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pequena África: encontro, debate e capacitação para a pesquisa das Casas de Linha Contínua no RS

Mãe Sandra de Oxum

Edital de Chamamento - Seleção de Bolsistas/Pesquisadores para o Projeto Pequena África